domingo, 27 de setembro de 2009

uma definição

Algo novo no ar. Expiro e tiro o pó dos pulmões. Só agora, finalmente, vou poder respirar. O juízo de dez mil anos sobre si e em torno de si é algo genuinamente marcante e impactante, para não dizer perigoso e machucante.
Todas as respostas belas ou terríveis que vieram à boca e foram, novamente, engolidas; todas as expressões de sentimento que se esvaziaram; todas as palavras caladas pelo momento; todas as tempestades que se tornaram brisas... tudo somado e igualado a nada. Pelo simples fato de serem podadas pelo juízo e respeito às antigas tradições, cuja epigênese encontrar-se-á numa mera narrativa de faz-de-conta, passada e encaduquecida de e por gerações (a gerações). Estória contada para dar explicações esvaziadas pelo tempo, que deveriam ser sacudidas e aniquiladas pela dura verdade.
Quão vão seria sentar para escrever quando ainda não se levantou para viver! Acho que a vivência tem me obrigado a atos forçosos. O convívio exige lapidação. A convivência é, então, uma garimpagem, na qual as pedras são postas em atrito profundo e demorado, onde as faíscas são ofuscadas pelo lídimo brilho dos não-mais-brutos diamantes que, após árduo conflito e fricção, mantém-se austeros, mesmo tendo partido as outras. A pergunta capciosa seria: vale mesmo a pena tanto esforço? Se sim, até quando? A mente que se entrega às vontades de tão flexível deixa o corpo curvado. À sombra da estrada logo é denotado o corpo que se dobra às mínimas vicissitudes, por fraqueza. Ou seria cansaço? A lida diária também nos curva. Suportamos a dor advinda desse ato e, em troca, fazemos cara de bonzinhos e adoçamos o próprio diabo. A diferença entre uma pessoa e outra está na maneira como esconde essa corcunda. Como lidar com algo tão complexo em espaço tão pequeno? Está muito além do poder das palavras a expressão primorosa e eloquente do ser. Esse ser que na verdade não está inexorável aos dias, às pessoas e ao tempo. Ser esse que, essencialmente, é um sendo. Algo em aeternae mutatione, nunca acabado; um continuum, sem inicío nem meio, com apenas o garantido final.
Assim eu me defino.
Com isso me limito.

domingo, 9 de agosto de 2009

Queria ter o dom da palavra e poder dizer coisas bonitas e impactantes a torto e à direita. Queria poder me fazer entendido. Há outras maneiras para isso, sei bem. Sei também que essa é uma característica pertencente a alguns poucos escolhidos. Se é que esses seriam escolhidos, ou privilegiados. De vez em quando, me sinto tentado a escrever exaustivamente até ultrapassar os limites do papel, ou da tinta, ou do tempo, não nego. Não tenho porquê negar. O gosto de escrever vem da mistificação da tinta sobre o papel. Não sei ao certo se a felicidade dos dois é algo que me alegra. Sei apenas que não desagrada. No entanto, sou desleixado e preguiçoso, quase sempre. O intuito de escrever é vetado pela latente necessidade de viver. Detestável deixar de fazer algo em detrimento de outro que você sequer assinalou. Embora, reconheço, o cansaço, que só me dou conta da existência nos milímetros de momentos que sucedem a respiração e precedem a escrita, é o maior estopim. As desilusões, as frustrações, as decepções, fazem soma para dizer, sem dó nem piedade, à vontade escrivã: NÃO. Obviamente que, no de vez em quando do quase sempre, me pego escrevendo, frustrado, sorumbático, obnubilado e me assusto, como quem acorda de um coma ou um transe. Porque o escrever não pode ser regurgitações das desventuras; ele é um exoesqueleto de dois gumes, apontado para ambos os lados, fora e dentro, esperando um deslize. É por ele que você fere e é com ele que é ferido. Essa escrita é outrossim o alter-ego, causa e consequência do egoísmo natural, que me azula. A insólita vontade tem seu preço, e assim percebo que a desobediência e o paradoxo são instrínsecos de um eu todo retorcido, cuja procedência tem no âmago a sua epigênese, que não está, nunca estará, pronto para viver, mas que assim o faz por mero capricho e arrogância. Seu tácito destino não é outro. Será a solidão a manifestação d'além necessidade e d'aquém boa vontade e subserviência? Certamente que sim. O corpo e a fronte que se curvam e dobram à vontade de outrem não são os mesmos que se mantém inexoráveis e inatingíveis ao tempo e às pessoas. Mas os olhos empoeirados pela vida são os mesmos perspicazes de outrora. Espero que o sol aqueça o chato friúme que vem e vai e a brisa passe logo. Talvez, muito talvez, o vento carregue a poeira e eu possa piscar. Haveria aí uma lágrima?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Conversas

[uma homenagem a Tiago Lucas]
- Vovó, conta uma história?
- Tantas quantas puder... para passar o tempo e meus cabelos envelhecerem.
- Mas seus cabelos são brancos.
- Sim. Mas ainda são tão novos quanto eu. E ambos não aprendemos coisa alguma sobre a vida.
- Para uma pessoa chegar nessa idade, algo deve ter aprendido.
- Fazer comida e tricotar.
- E contar histórias.
- E contar histórias.
- Posso perguntar uma coisa pra senhora?
- Tantas quantas sua boca permitir.
- O que a senhora sentiu quanto o Vô morreu?
- Uma dor de barriga.
- Eu falo emocionalmente.
- Eu também.
-Mas...
- Poucos conseguem ser profundos. E poucos desses poucos conseguem causar uma dor de barriga.
- Mas...
- Você ainda é muito jovem para entender. Chorar só iria me fazer mal, exceto por lavar minhas retinas não fatigadas. No final, me desidrataria e ficaria com essa puta dor de cabeça e uma cara inchada.
- E a dor de barriga?
- É a melhor sensação e a pior dor. Uma sensação de alívio e a dor da perda. Na correria do minuto a minuto é impossível reparar as coisas a partir da sua constituição. Os detalhes. E é só no seu momento (que na verdade deixa de ser seu) que você atenta e precisa esses detalhes. Eu só vim me dá conta que a vida não era um sonho, que eu estava há muito tempo, quando a água fria caiu onde não devia e me despertou da realidade. Foi nesse exato momento, de alguns segundos de susto e revolta, que me dei conta do quanto eu era importante. Do quanto somos importantes e insignificantes.
- Dura como a verdade.
- Ou a massa daquele pão francês.
- Aproveitando.... a senhora já foi a França, não foi?
- Na época em que meus dentes não dormiam num copo com água. E eu, num barril de cedro jogado no Champs Elysée.
- Tenho a maior vontade de conhecer a França. O que tem lá?
- Franceses, eu acredito.
- ...
- Fora isso, o mesmo que temos aqui. Só que de uma forma menos (ou seria mais?) organizada. Um povo que faz bico ao falar e, alguns, te olham com desdém.
- Mas isso não os difere dos daqui.
- Exatamente. Vieram do mesmo barro.
- Viemos.
- Vieram.
- A senhora também.
- Não. Eu vim de um punhado de cálcio e aurum.
- Isso te faz diferente ou superior?
- Em momento algum. Pois o ouro é lapidado e muda sua forma e o cálcio começa a desaparecer.
- O que isso significa?
- Que quando se está lapidado a ponto de ser aceito, o corpo cede e a vida se esvai. Por um orifício que não o da saudade.
- Certo. Mas como a senhora veio parar aqui?
- Minhas pantufas vieram e ouviram alguém se mexendo na cama.
- Eu não falava do quarto.
- Nem eu. E a pessoa que se mexia era o Ricardo. Alguém que só aparece agora na história e depois some.
- O que aconteceu com o Ricardo?
- O mesmo que com o resto.
- Morreu?
- Morrer é para os fracos e loucos.
- Então somos todos.
- Se é isso que achas... quem sou eu para cambiar-te a mente?
- Sim, e o que aconteceu com o Ricardo?
- Você não é surda. O mesmo que com o resto.
- Morreu?
- Não sei. Apenas tornou-se desconhecido.
- Isso é muito ruim?
-Depende da pessoa. No caso dele foi péssimo. No caso dele é péssimo.
- Mas pro mode que pensou nele?
- Não pensei. Apenas o tirei do esquecimento.
- Mas, então... como foi que a senhora veio parar aqui?
- Andando daqui para ali, conversando de lá à acolá. Viajando sempre, assim estava eu. Até que um dia resolvi parar. Nesse dia a realidade me realizou. Nesse dia eu fui eu. Por algum curto tempo. Eu estava na Espanha. Um calor infernal e eu, agora real, tinha fome e sede. Não pude fazer outra coisa. Tornei-me deusa. Fiz vida. Vidas. Não posso dizer que gostei. Tampouco que deixei de gostar. Fazia para continuar sendo real. Mas é difícil. Ganhei um bom dinheiro. Abri minha própria casa. Com ajuda de amigas. Fomos felizes. Muito. Caí na ilusão do casamento. Fui feliz. Muito pouco. Viajei por todas as capitais da Europa, antes que o touro a seguisse. Conheci lugares belos e tornei alguns conhecidos. Morei em Itapiranga. De fato, o nome era verídico. Só havia pedra vermelha. O gado morria a cada esquina. Ainda bem que só havia uma. A do desespero. Larga e bela. No início. Visitei-a por completa. Nunca mais voltei. Nunca mais fui a menina descalça. A mulher bem vestida. A velha desnuda. O destino é previsível para quem usa os óculos do olho. A catarata me deixou com a metade de um. E sou feliz com isso. Muito. A felicidade parece difícil quando se finge procurá-la... sua mãe apareceu. E com ela nove dedos nas mãos. E uma menina de tipóia. Nada além disso me faria acordar de novo. Andei com os pés, joelhos e mãos. Cumpri o meu não-objetivo. Vivi.
- Agora me conta uma história?
- Mais outra? Amanhã, talvez.
- Vó, eu te amo.
- Eu também.
- Você também me ama?
- Eu não quis dizer isso. Eu também me amo.
- Vó, onde está minha mãe?
- Essa pergunta receio não poder responder.
- Sei que tenho a senhora. Mas sinto muita falta da minha mãe. Saudade de quando, ao dormir, me abraçava, acariciava; beijava e, ao sair do quarto, olhava com ternura. Ah, mas como dói!
- Não tenho sido um exemplo de mãe. Nem quero ser. Não estou aqui para fazer o papel dela. Estou aqui para educá-la e te ensinar parte do que aprendi, para que não passes pelos mesmos tortuosos caminhos que passei. Menina, que cara é essa?
- O que é tortuoso?
- Uma torta de osso com limão. Dura e azeda.
- Isso não deve ser muito bom.
- Não. Não é.
- Vó, a senhora me põe na cama?
- Se minha catarata não me engana você já está na cama. Pensei que fosses inteligente.
- Sei que estou na cama. Estou pedindo para contar uma história e me por para dormir.
- Posso te por para dormir?
- E a história?
- De novo? Aff... cansei de conversar com espelhos e bonecas. Como dói estar só.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Morte negra de D. Fulô


Mataram a D. Fulo!
Quem com negras mãos
(sem negras unhas)
Branqueava a negra sujeira
Dos sujos não-negros.
Sorria (com dentes marfim
Roubados da negra Mãe - África)
Ao branquear a casa.
Rebolava (com negra bunda
Sofrida, murcha e caída)
Alegrando branco-negro senhor.
Seus negros pés calejados
De andar em negras terras;
Por medo do negro poder branco.
Seus negros seios moles;
Negros de apanhar.
Sua negra boca torta;
Negra e torta de fumar.
Fumar negro tabaco,
Soltar negra fumaça negra
Que enegrece o branco lar.
- Mataram a D. Fulô!
Não foi branco.
Foi negro.
Negro no pensamento negro;
Negro na alma (já negra).
Intenções mais negras
Que a negra noite e o
Negrume da negra pele
Da carne negra;
De uma negritude
Negramente negróide.
Negra, irmã negra!
Tentou escapar do
Negro que nela batia
E no estalar da negra
Chibata negra,
Seu negro sangue negro jorrou
Como fogo negro queimando.
- Mataram a D. Fulô!
Negro Deus, como queria;
Descobrir o negro por que...
Mil troncos e surras;
Negro algoz, desgraçado.
Matou.
Matou a negra café.
Matou a negra fulô!

domingo, 16 de março de 2008

Qtau/

Bjosmeliga. Eu nunca imaginei que uma coisa tão idiota fosse dar luz a algo tão belo.

Acho curioso e surpreendente como duas pessoas, separadas por kilômetros de grãos de areia, passam a se adorar. Muitos podem chamar de acaso. Outros, destino. Eu chamo de Amizade. Não posso negar a existência desses dois primeiros. Também não posso comprová-la. Na verdade, não acredito em nenhum deles. Apenas na Amizade. E Ela sempre vem em boa hora.

Há um tempo, eu estava extremamente down - o que acontece com frequência- mergulhado em estudos e poesias. De repente, descubro alguém que compartilha da mesma penitência que eu: escrever. Se bem que para ela não deve ser penitência alguma. Para minha surpresa, essa pessoa expôs alguns de seus escritos à críticas. (Abro aqui um parêntese. Sempre adorei criticar. Digo, falar mal. Se eu pudesse, só falava mal. Agora estou me retratando. Há um ano estou me auto-medicando). Numa das recaídas, embora receioso por ser escaldado, pelo fato de preferir a verdade ao agrado, fiz minha crítica. Construtiva.

A partir daí começou. Meu cumprimento de despedida foi: Bjosmeliga. Mas como ligar sem o número? Aí, descrente que receberia uma ligação à cobrar, que fosse, mandei o número. Então, enquanto estava naquela fase, oscilando entre o levanta e o volta a dormir, recebo a seguinte mensagem: Alovose, Mauricio ;). Não teve jeito. Dei um pulo da cama. Respondi e pensei que tudo se resumiria àquilo.

Ledo engano. Enquanto obedecia a máxima de Shakespeare: "com semblante de devoção e ação piedosa, adoçamos o próprio demônio". Ou numa linguagem menos poética: enquanto flamejava a vida e tentava ser simpático, com alguns poucos merecedores, recebo uma ligação. E não era O Chamado. Durou apenas 24 segundos e três frases. Foi o suficiente. O suficiente para aceitar a sublime invalidez de sendo humano.

Por isso deixo a dica. Pequenos gestos como esse fazem com que passemos a olhar as coisas com olhos diferentes. Sem, ao menos, fazermos transplante.

Talvez agora seja a hora de concordar com Hernest Hello:
"There are men who would quickly love each other if once they were speak to each other; for when they spoke they would discover that their souls had only separated by phantoms and delusions."

quarta-feira, 5 de março de 2008

Señora

Señora das vestes negras
Prateadas e douradas.
Em teus cabelos, que o vento se perca;
E cante e toque como u'a flauta.

Señora dos olhos de pedra
Que com um olhar, o gelo derrete;
Com um piscar, o fogo congela;
Com uma lágrima, o mundo fere.

Señora dos lábios ardentes;
De beijos doces feito mel;
Que flui pela boca contente;
Ascende um calor ao céu.

Señora da pele morena
Corada pelo deus - sol,
Que o mesmo assim a mantenha
Com estrelas sendo teu lençol.

Señora do coração vazio
Farei de ti meu querubim
Aquecerei em ti o frio
Pra sempre seja assim.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Ghost: do outro lado da vida

Assim eu começo meu blog. Contando fatos da minha vida. Não como uma auto-biografia ou revista TI-TI-TI. Apenas alguns escolhidos fatos para que possam passar o tempo.

Fui convocado à trabalhar no carnval. Mais especificamente, como 'Guia do Carnaval', ajudando os foliões, sendo eles turistas ou não. Do lugar que eu estava deu para ver muitas coisas. Coisas que a televisão não mostra, a não ser os programas sensacionalistas. Mas esses não contam; para terem ibope, mostrariam até a mãe pelada - se bem que, duvido muito do bom resultado, levando em consideração 'o material' (em decomposição).



Então, o carnaval. Fico impressionado como conseguem pensar que o carnaval é uma festa para o povo. Só se for para o povo brigar. Para ficar mais claro(?) vou escrever como se estivesse contando para a 4º série. Tipo, essa festa é aquela típica da promoção do 'papai'. O chefe vai à casa do 'papai' para um jantar. A depender da família, 'papai' é promovido. Na hora da janta, a família consegue se comportar: "boa noite", "pois não, senhor?", "é claro que posso", até arriscam um "S’il vous plaît" e um "Thank you". Depois da promoção, no outro dia, saem para jantar pé de galinha (que o terreiro jogou fora), acompanhado de Ki-suco; também conhecido como 'tinge pulmão'. Enquanto isso, a outra família o aguarda para a comemoração com caviar e uma garrafa de Henri Abelé.



Eu falei de uma briga, não foi? Bom... a pergunta é por que essa briga? Sabe aquele membro rebelde da família, que preferem mantê-lo afastado, tipo...er... aquela filha que se enche de piercings e tatuagens e, nas horas vagas, cheira meia hora de pó; aquele filho que resolve...er...mostrar seu lado feminino e foge de casa? Então... por que eles fazem isso? Para chamar a atenção do 'papai' e mostrar que também existem. Mas o 'papai' não entende e chama aquela tia que poucos gostam, de nome 'Apolícia', para dar um jeito neles. Todo dia é aniversário dessa tia e, sendo ela bondosa, no lugar que chega, distribui bolo e fanta. Ninguém pára em pé. É uma maravilha.



Ainda no lado psicológico da briga, como o povo pode conceber a idéia de não ter R$:350,00 para passar o mês, enquanto alguns poucos gastam o triplo, por noite? Disso resulta a inveja e a revolta. Aquela briga de primos. Daí surgem os apelidos da prima 'Ladra', do primo 'Malandragem' e por aí vai. Depois dizem que "a ocasião faz o ladrão". O ladrão já nasce feito, a ocasião só faz o furto. Achei interessante, mas não faço idéia quem disse.



De qualquer sorte, já vou indo (engraçado... ir indo). São 05:38 e preciso voltar para a cama. De repente amanhã tenha mais. Por hoje é só.











(Esse texto foi escrito baseado nos parâmetros da ditadura, na qual uma coisa não é aquela coisa. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Atenciosamente, equipe GOOGLE)