segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Conversas

[uma homenagem a Tiago Lucas]
- Vovó, conta uma história?
- Tantas quantas puder... para passar o tempo e meus cabelos envelhecerem.
- Mas seus cabelos são brancos.
- Sim. Mas ainda são tão novos quanto eu. E ambos não aprendemos coisa alguma sobre a vida.
- Para uma pessoa chegar nessa idade, algo deve ter aprendido.
- Fazer comida e tricotar.
- E contar histórias.
- E contar histórias.
- Posso perguntar uma coisa pra senhora?
- Tantas quantas sua boca permitir.
- O que a senhora sentiu quanto o Vô morreu?
- Uma dor de barriga.
- Eu falo emocionalmente.
- Eu também.
-Mas...
- Poucos conseguem ser profundos. E poucos desses poucos conseguem causar uma dor de barriga.
- Mas...
- Você ainda é muito jovem para entender. Chorar só iria me fazer mal, exceto por lavar minhas retinas não fatigadas. No final, me desidrataria e ficaria com essa puta dor de cabeça e uma cara inchada.
- E a dor de barriga?
- É a melhor sensação e a pior dor. Uma sensação de alívio e a dor da perda. Na correria do minuto a minuto é impossível reparar as coisas a partir da sua constituição. Os detalhes. E é só no seu momento (que na verdade deixa de ser seu) que você atenta e precisa esses detalhes. Eu só vim me dá conta que a vida não era um sonho, que eu estava há muito tempo, quando a água fria caiu onde não devia e me despertou da realidade. Foi nesse exato momento, de alguns segundos de susto e revolta, que me dei conta do quanto eu era importante. Do quanto somos importantes e insignificantes.
- Dura como a verdade.
- Ou a massa daquele pão francês.
- Aproveitando.... a senhora já foi a França, não foi?
- Na época em que meus dentes não dormiam num copo com água. E eu, num barril de cedro jogado no Champs Elysée.
- Tenho a maior vontade de conhecer a França. O que tem lá?
- Franceses, eu acredito.
- ...
- Fora isso, o mesmo que temos aqui. Só que de uma forma menos (ou seria mais?) organizada. Um povo que faz bico ao falar e, alguns, te olham com desdém.
- Mas isso não os difere dos daqui.
- Exatamente. Vieram do mesmo barro.
- Viemos.
- Vieram.
- A senhora também.
- Não. Eu vim de um punhado de cálcio e aurum.
- Isso te faz diferente ou superior?
- Em momento algum. Pois o ouro é lapidado e muda sua forma e o cálcio começa a desaparecer.
- O que isso significa?
- Que quando se está lapidado a ponto de ser aceito, o corpo cede e a vida se esvai. Por um orifício que não o da saudade.
- Certo. Mas como a senhora veio parar aqui?
- Minhas pantufas vieram e ouviram alguém se mexendo na cama.
- Eu não falava do quarto.
- Nem eu. E a pessoa que se mexia era o Ricardo. Alguém que só aparece agora na história e depois some.
- O que aconteceu com o Ricardo?
- O mesmo que com o resto.
- Morreu?
- Morrer é para os fracos e loucos.
- Então somos todos.
- Se é isso que achas... quem sou eu para cambiar-te a mente?
- Sim, e o que aconteceu com o Ricardo?
- Você não é surda. O mesmo que com o resto.
- Morreu?
- Não sei. Apenas tornou-se desconhecido.
- Isso é muito ruim?
-Depende da pessoa. No caso dele foi péssimo. No caso dele é péssimo.
- Mas pro mode que pensou nele?
- Não pensei. Apenas o tirei do esquecimento.
- Mas, então... como foi que a senhora veio parar aqui?
- Andando daqui para ali, conversando de lá à acolá. Viajando sempre, assim estava eu. Até que um dia resolvi parar. Nesse dia a realidade me realizou. Nesse dia eu fui eu. Por algum curto tempo. Eu estava na Espanha. Um calor infernal e eu, agora real, tinha fome e sede. Não pude fazer outra coisa. Tornei-me deusa. Fiz vida. Vidas. Não posso dizer que gostei. Tampouco que deixei de gostar. Fazia para continuar sendo real. Mas é difícil. Ganhei um bom dinheiro. Abri minha própria casa. Com ajuda de amigas. Fomos felizes. Muito. Caí na ilusão do casamento. Fui feliz. Muito pouco. Viajei por todas as capitais da Europa, antes que o touro a seguisse. Conheci lugares belos e tornei alguns conhecidos. Morei em Itapiranga. De fato, o nome era verídico. Só havia pedra vermelha. O gado morria a cada esquina. Ainda bem que só havia uma. A do desespero. Larga e bela. No início. Visitei-a por completa. Nunca mais voltei. Nunca mais fui a menina descalça. A mulher bem vestida. A velha desnuda. O destino é previsível para quem usa os óculos do olho. A catarata me deixou com a metade de um. E sou feliz com isso. Muito. A felicidade parece difícil quando se finge procurá-la... sua mãe apareceu. E com ela nove dedos nas mãos. E uma menina de tipóia. Nada além disso me faria acordar de novo. Andei com os pés, joelhos e mãos. Cumpri o meu não-objetivo. Vivi.
- Agora me conta uma história?
- Mais outra? Amanhã, talvez.
- Vó, eu te amo.
- Eu também.
- Você também me ama?
- Eu não quis dizer isso. Eu também me amo.
- Vó, onde está minha mãe?
- Essa pergunta receio não poder responder.
- Sei que tenho a senhora. Mas sinto muita falta da minha mãe. Saudade de quando, ao dormir, me abraçava, acariciava; beijava e, ao sair do quarto, olhava com ternura. Ah, mas como dói!
- Não tenho sido um exemplo de mãe. Nem quero ser. Não estou aqui para fazer o papel dela. Estou aqui para educá-la e te ensinar parte do que aprendi, para que não passes pelos mesmos tortuosos caminhos que passei. Menina, que cara é essa?
- O que é tortuoso?
- Uma torta de osso com limão. Dura e azeda.
- Isso não deve ser muito bom.
- Não. Não é.
- Vó, a senhora me põe na cama?
- Se minha catarata não me engana você já está na cama. Pensei que fosses inteligente.
- Sei que estou na cama. Estou pedindo para contar uma história e me por para dormir.
- Posso te por para dormir?
- E a história?
- De novo? Aff... cansei de conversar com espelhos e bonecas. Como dói estar só.

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